Cada decisão conta!

 

Os sites de finanças pessoais têm muitos artigos falando sobre a importância de economizar nas pequenas coisas. Não discordo disso. O que não acho correto é construir um planejamento financeiro baseado em nunca mais comer uma pizza no fim de semana com os amigos ou a família, ou então parar de tomar o cafezinho diário, e acreditar que, automaticamente, esse dinheiro será investido. E pior ainda, para ser gasto quando completarmos 60, 65, 70 anos...

 
Escolhas financeiras
 

O que está em jogo nessa situação é um hábito. Muitas pessoas (e não vou aqui julgar se é certo ou errado, pois se trata de um processo de escolhas, ainda que seja muitas vezes sem o conhecimento adequado) aceitam comprar um carro financiado em 72 vezes. No final do período, terão um bem que sofreu forte desvalorização, gerou gastos (manutenção, impostos), e também uma parcela significativa de juros.

Para boa parte dessas pessoas, jamais adiantará argumentar usando o exemplo do cafezinho diário: “ -Se você economizar esses R$4,00 todo dia, ao final de um ano terá R$1.460,00. Aplicados a uma taxa de juros livre de 6%, em 20 anos terá R$ 53.700,00 e então poderá comprar seu carro à vista! ”.

Isso não funciona porque, além de conceitos que nem todo mundo domina, como juros compostos por exemplo, a ideia de que existe uma fórmula pronta, que se aplica a todos os casos, pode na verdade diminuir o interesse da pessoa pela educação financeira. Ela pode não se reconhecer nesse cenário e se afastar totalmente da busca por uma solução, justamente por imaginar que não há uma saída para sua condição atual.

Ao transformar toda decisão em uma conta na planilha, fica de fora a parcela mais importante da equação: o que motivou a pessoa a escolher essa opção? Em qual fórmula está previsto o peso das emoções? E das necessidades? E das crenças?

Infelizmente não existe modelo que seja capaz de abranger essas questões. Podemos tentar ser o mais “racional” possível. Ao pesquisar o preço de um carro popular zero quilômetro, ir para o Excel e descobrir que dar 25 mil de entrada e financiar o saldo devedor (14 mil) em 60 vezes de 399 não é um bom negócio, pois se o mesmo valor inicial for aplicado e depois depositando as prestações, teremos o necessário para comprar à vista em 31 meses. Feliz da vida desligamos o computador. Na primeira manhã chuvosa esperando o ônibus passar (e ele com certeza vai atrasar), esquecemos as contas no Excel, reserva de emergência, esquecemos até da aposentadoria! O que importa é que 399 por mês dá para pagar!

E assim, de escolha em escolha, construímos nossa história financeira. A compra do carro foi feita, e junto com ela veio o fim da aplicação e os juros que ela rendia. Veio o gasto com seguro (-ah, só mais 200,00 por mês), o gasto com IPVA (maldito governo!), com as revisões devidamente amarradas pela concessionária (caso contrário, esqueça a garantia!).

- Mas eu preciso / quero / mereço um carro!!!!

Sem problema! Apenas precisamos ter em mente que precisar não se relaciona com querer nem com merecer. Será que um carro usado não atende a necessidade de locomoção?

- Mas carro usado dá gasto com manutenção!

Carro novo também dá... Acabei de falar sobre a revisão obrigatória nas concessionárias para manter a garantia de fábrica.

- Ah, mas tem o cheirinho de novo do carro zero!

Percebeu? No fundo, no fundo, o que a gente busca é uma frase pronta, uma explicação para nossas ações, para nossos impulsos. Será que esse cheirinho de carro novo dura até o final do carnê? Spoiler: Não!

 Muitas vezes consumimos para compensar frustrações, medos, ansiedades ou culpas. E nesse oceano de emoções, o lado racional fica devidamente submerso. Nossas escolhas sempre causam impacto. Invariavelmente seremos confrontados, lá na frente, com a consequência de decisões muitas vezes equivocadas.

Lidar com isso dá trabalho, não é fácil. Se não bastasse nossa própria fragilidade, somos ainda bombardeados por mensagens de estímulo a um padrão de vida muitas vezes fora de nosso alcance, de nossa realidade.

Não raro, aquele produto que custa muito mais do que efetivamente vale ou que vamos usufruir, vem acompanhado de uma generosa linha de crédito, com parcelas sob medida para qualquer orçamento! É a isca para nos manter nessa ciranda. Pois em 12, 24, 36, 60 meses, quantas novas necessidades surgirão? E aquela decisão precipitada que tomamos continua lá, em forma de suaves prestações, que impactam todo o orçamento.

Cuidar do nosso comportamento financeiro é um desafio, pois é quando transpomos para a vida real tanto o conhecimento (ou a falta dele) quanto as atitudes que temos diante das finanças. É nesse momento que o autoconhecimento pode fazer a diferença para melhor.

E o que mais funciona para você evitar decisões que tragam arrependimento? Como é lidar com todas as “tentações” de consumo que aparecem constantemente? Tem alguma dica para compartilhar com a gente nos comentários?